Terça-feira, Dezembro 08, 2009



Veja-se o corpo despido do mundo
Sobre si mesmo o renascer
Sem viva fonte, um elo ausente
Veja-se o corpo na sua forma
E o profundo à sua volta:

Estilhaço de lua, ar que se afasta
O fogo que se apaga devagar
Resta o desejo de sentir o vento
Um simples respirar.

Os dedos perdem-se na procura
Num alcance que se afasta
E no olhar a expressa loucura
De um cisne que se devassa…

Sexta-feira, Outubro 30, 2009



Ousar ser Livre

Quem deu ao mar a sublime liberdade
De ser mais que o toque salgado num corpo quente,
O rugir a dissolver-se na espuma branca,
Quem a deu esqueceu a alma.

(Querer) Ir além da noção física que a carne envolve
Superar a fome e a sede
Os sentidos, a gravidade - (a civilização?)
Rasgar os preconceitos da língua!
Fluir apenas, como quem respira.

Quem se esqueceu de esquecer os “outros”,
Esses que nos vêem quando não os vê-mos:
Um olhar que se afasta, uma alma que se apaga
E prende mais um pouco…

Ousava ser o rebentar das ondas,
Ir além de todas as condicionantes e politiquices
Onde sempre serei mortal…
Mas quem deu ao mar a liberdade
Não esqueceu a arte de sonhar.

Domingo, Outubro 25, 2009



Era eu a fome contida no seu silêncio
Sem palavras a quem deixar o desespero;
Era eu por dentro:
Uma espécie de (des)construção maciça,
Sobreposta ideia (in)constante;
O segredar de um desejo próprio
De quem se desconhece mais que do mundo.

Era tantas coisas, e coisa nenhuma,
Um espelho embaciado e um corpo molhado
No seu sal, na aridez rochosa de qualquer falésia.
Era vertigem num céu de lua branca!

(Des)faço-me na penumbra das manhãs
E não me vejo senão em recatado caminho;
Escondo-me do fogo que respiro
Da (in)consciência de que existir é um gargalhada…

E eu que detesto circos e palhaços.

Segunda-feira, Setembro 21, 2009


Espiral

É o Mundo não outro que pequeno quintal
Nosso, deles, de ninguém ou de si mesmo
Em profundo pensamento estéril.
O Mundo é uma espiral ao meu olhar
E o que sou encerra-o num esgar soturno
Para que cuspa o sangue e a fome;

Essas palavras são de fome e não de sede
Porque sede tenho eu e não bebo.

Face ao mundo que não é
De tudo aquilo que eu não sou - fui - serei
Porque não me sou, nunca me sou;
Uma espiral que não encerra o seu gesto circular.
Sou uma espiral de argolas irregulares
Não de argolas, que não se unem
Como eu não me uno ao mundo, nem a mim nem a ninguém,
Vou-me reinventando sem escrúpulos
Sem sentido de metamorfose.

E o mundo é pequeno quando o atravesso
As ruas são pequenas, os cafés são pequenos
As almas são pequenas e assim as palavras.
Eu, que não sou grande, não consigo ter espaço
Não consigo respirar entre tanta gente,
Um sentimento de claustrofobia que se repete
Entre as mesmas máscaras pintadas de branco
Tão complexamente vazias na sua fútil existência.

É o mundo pequeno e as pessoas pulgas,
Parasitas de máscara branca com olhos de porcelana,
A vazia igualdade expressiva - sugam vida
Não a sua, mas entre si, canibalescas
Consomem-me também
Se adormeço no seu tédio de existir,
Não me sabendo ser se não no recomeço
A espiral a que me faço ser repetidamente
Sem nunca ter nascido, sem nunca vir a morrer,
Porque não sei ser outro que não isto
Num mundo pequeno como os seus,
De pequenas vontades e destreza para sonhar.

Todos pequenos, todos iguais, num qualquer sítio
Talvez numa espiral, talvez;
Talvez bebendo mais um copo
Esquecendo vidas tão pequeninas;
Quase podia sorrir pois não as teria de ver,
Essa histeria de viver sem uma história.

Glória, ó Glória povinha
Que se assombra nos astros de ontem
Uma sombra perdida na sua noite
No mais profundo silêncio

O Mundo é excessivamente pequeno

Segunda-feira, Agosto 31, 2009

Palavras Pequenas

A vida do gato boémio persegue-me enquanto durmo. Aquela sensatez bebida de quem se esconde no próprio grito já não me intriga, é ver o orgulho ferido quando o relembro entregue à melancólica melodia que trazia nos lábios, a cobrir os olhos com as mãos frias, que me faz as palavras de inocente simpatia.
Soube que nasceu sem nome. Cada um deu-lhe o que quis (diz ter muitos). Mostrou-se como gato boémio com letra pequena num guardanapo de papel com café. As palavras são pequenas, como eu, num papel onde se limpa a boca que os outros sujam e amachucam e deitam fora. O café é para dar genica ao pulso.
Não é o nome a forma que atribuímos à face da lua? A simplicidade desses signos, a ligeireza para uns, a grandiosidade para outros, apenas a vontade de um sentido. Tudo o que as mãos não sentem esconde-se nessa máscara de porcelana, tão bela, brancura pálida coberta de uma de muitas cores, um traço por cada sonho.

Quarta-feira, Agosto 26, 2009



O que ontem encenei, com os gestos postos sobre uma audiência furiosa, foi a dança perpetuada de mãos alheias. E hoje, a liberdade caustica permite-me recriar a vontade de um sonho, inflamando o corpo numa tentativa mesquinha de limitar a extravagante construção do meu castelo.
Como alma retalhada quedo-me a um canto mal iluminado. Não vejam nos meus olhos os devaneios púrpura que evadem e despertam a cidade. Não seria sensato deixar permanecer a insegurança desta gente. Que não os vejam para que fiquem, para que não mos levem.
Só depois veio o gato boémio. Não sendo dado a conversas com estranhos, declamava façanhas afagando os bigodes cuidados. E eu ouvi-o numa noite madrugadora, partilhando de seus vícios. Exausta perspectiva da inconsciência prática, como quem bebe um copo de vinho tinto ao som de jazz e do crepitar do fogo intelectualizado. Ouvi, na delícia do sumir das estrelas, um cocktail de sonhos miseráveis brindado ás suas loucuras gulosas.
O que recorda é a ansiedade, foi tudo o que lhe restou. Não foi a casa que ardeu. O fogo vinha de dentro, sem queimar, estava no peito a consumir-lhe o ar que respirava, e o corpo pedia mais. Foi necessário lançarem-no ao mar numa noite fria de Janeiro. Abraçou-o sem receios e adormeceu.

Sábado, Agosto 15, 2009


Quase

O silêncio é infinito nos lábios de quem não ouve. Uma mistura química, o gosto quase doce a escorrer nas mãos quase frias. É o silêncio.
Um quase silêncio atrofia. O ranger de uma porta até que finalmente se dissipa com o estalar do trinco. Passos vermelhos no soalho escuro. Um quase que não é. Um quase resulta no zumbido da lâmpada, a pedra do isqueiro e um suspiro cinzento.
E tu olhas-me. Fecho os olhos para não me veres. Era um espelho. Os espelhos e o quase silêncio atrofiam. Ou é cá dentro que se contorce contra as paredes conscientes. Uma quase ironia que as palavras não sentem, é falso dizer que sim.

Terça-feira, Junho 23, 2009

MaD wOrLd



Sou desnecessário e descartável.
Reciclável?
Já tentou, má ideia, estoirou-lhe na cara de bicho.
Lixo.
Já fui pior.
Aceitável, digamos, mas só para alguns.
Os outros não me conhecem.
Ainda assim falam, muito se fala nesta praça…

E a culpa é de quem?
Minha?
Tua?
Nossa?
Deles?

Vamos tentando arranjar desculpas para o indesculpável.
Ás vezes tenho sono e não consigo dormir.
Outras não posso.
Não quero.

Arrasto-me da cama para a casa de banho.
Da casa de banho para a cozinha.
Da cozinha para o quarto.
Do quarto para a rua.
E a aventura começa numa correia estupidamente desnecessária.

Um livro, um sorriso.
Um livro, um misto de emoções.
Palavras simples, palavras rebuscadas, debruçadas sobre a mente.
Morrem depois no silêncio de nunca serem ditas.
Na língua seca, numa boca amarga.
Num ego desfeito.

Se sou feliz?
Sou.
Se sou louco?
Talvez.
Sim.
Faço um esforço.

Quinta-feira, Junho 18, 2009


Ansiedade

Lágrimas sobre a pele
Quente
São beijos discretos que me percorrem
No silêncio
A ansiedade constante

Não mais que um momento
Perdido algures
Entre olhares e palavras
Molhadas
Sentidas - sôfregas vontades

É o acordar na incandescência
Inconsciência talvez

Extingo-me
Reinvento-me amanhã

Quarta-feira, Maio 27, 2009


Vontade de cegueira

Esses olhos que não sabem ver
O céu púrpura a tingir o mar
Cobrem mármore pérola,
Roubam o sabor da terra.

Respiro ar que não sai!
Amassou palavras secas com as mãos sujas
E os olhos não sabem ver
A vontade que não sabe ser;

Do corpo jorram promessas
Insanas e devassas expressões,
Nuvens e anjos e pássaros
E todas essas estranhas noções.

Esses olhos não sabem ver
Uma vontade que não quer ser,
Cega de si, cega de mim:
Cega de todas as cores do mundo…